Prats (família)
DownloadResumo
A família Prats, originária de Llagostera, um dos principais núcleos corticeiros de Girona, consolidou desde meados do século XIX uma trajetória empresarial profundamente ligada à indústria da cortiça. Ao longo de várias gerações, os membros da família fundaram fábricas, armazéns e empresas exportadoras, estabeleceram alianças comerciais transnacionais e criaram uma rota estável de exportação com Hamburgo, que se tornou um ponto-chave para os seus negócios. As redes familiares, a mobilidade geográfica e a capacidade de adaptação moldaram a trajetória dos Prats no sector corticeiro, cuja evolução foi influenciada por conjunturas internacionais e pela crescente hegemonia portuguesa na indústria.
Descrição
O sector corticeiro da província catalã de Girona, estabelecido na indústria e no comércio desde inícios do século XVIII (a primeira oficina dedicada ao fabrico de rolhas de cortiça de que há notícia em Espanha foi inaugurada na cidade de Tossa de Mar em 1739), começou a explorar novas áreas florestais, de modo a satisfazer a crescente procura por rolhas de cortiça, que era impulsionada, sobretudo, pelo aumento do consumo de vinho espumante por toda a Europa. Ao mesmo tempo, dada a escassa disponibilidade de matéria-prima na Catalunha – que naquela época dispunha de montados de sobro equivalentes a apenas 10% da superfície espanhola –, muitos empresários catalães deslocaram-se para as regiões do Sudoeste da Península Ibérica em busca de montados de sobro, nomeadamente para a Estremadura espanhola, para a Andaluzia, e para o Algarve e o Alentejo, em Portugal. Entre estes industriais, destacam-se os Prats, uma família de empresários corticeiros que descobriu oportunidades de negócio na Estremadura e em Portugal, criando nessas duas regiões uma importante rede no sector da cortiça.
Com origem em Llagostera (na província de Girona, Catalunha), os Prats tinham fortes ligações ao sector desde o início do século XIX, devido à tradição corticeira da cidade. Podemos tomar como ponto de partida Feliciano Prats Rosa (1814-1884), que está identificado como fabricante de cortiça em Llagostera em 1857 e que desenvolveu toda a sua vida profissional nesse domínio. Os seus filhos – Carmen Prats Corominas (1840-?), Dolores Prats Corominas (1842-1908), José Narciso Prats Corominas (1845-1916) e Sireno Prats Corominas (1857-1903) – foram a primeira geração a emigrar para diferentes pontos da Península, nomeadamente para o Alentejo e para a Estremadura.
José Narciso estava profissionalmente ligado a Hamburgo, na Alemanha, onde detinha uma casa de importação de rolhas e de folhas de cortiça. Através da rota marítima entre o porto de Sines e Hamburgo, pelo rio Elba, a exportação de cortiça tornou-se uma dimensão vital da atividade deste empresário. Além disso, José Narciso ocupava, na referida cidade alemã, o posto de cônsul das Honduras. As suas atividades estendiam-se também a cidades espanholas e portuguesas mais distantes, formando uma rede corticeira de grande dimensão. Em 1889, era dono de uma fábrica em Palamós (Girona), que, com uso de maquinaria hidráulica, formava fardos de aparas e outros resíduos de cortiça resultantes do fabrico de rolhas, que eram depois enviados para o estrangeiro (Artigas 1895: 302). Em Estepona, o anuário de 1886 regista uma fábrica em nome da companhia Prats y Vigas.
Francisco Vigas Prats era sobrinho de José Narciso, filho da sua irmã Carmen, que se havia casado com o comerciante Alberto Vigas, vice-cônsul de Portugal. Residente em Sines desde 1882, Francisco foi membro da Comissão Instaladora da Associação Comercial e Industrial de Sines, em 1916, e representante da Armação de Pesca Esporoeira, em 1927. Esta cidade portuária portuguesa tem especial relevância para o sector da cortiça, tendo ali sido criada, em 1838, a primeira fábrica com capitais portugueses e ingleses. Em meados do século XIX, várias outras fábricas de capital inglês se instalaram em Sines. A presença de investidores britânicos impulsionou o dinamismo económico da região, promovido pela indústria transformadora e de comércio de cortiça, e expandindo os seus interesses a sectores como a pesca, a agricultura e o imobiliário. No início do século XX, o número de fábricas de cortiça aumentou, tendo aparecido também as primeiras fábricas de conservas de peixe e sendo nomeados os primeiros representantes de instituições bancárias e de companhias de seguros na região. Em 1924, a Prats y Vigas era dona de uma fábrica de cortiça e rolhas na referida cidade portuguesa. Desde 1889, a empresa possuía em Sines ainda outra fábrica de placas de cortiça, que, de um efetivo inicial de sete trabalhadores (e uma produção de 6.600 fardos), atingiria em 1909 um total de 136 empregados. Nos anos subsequentes, com a Grande Guerra, a fábrica foi obrigada a suspender a sua atividade, não só devido à interrupção do comércio internacional, mas também por ter sido classificada pelo governo português com o estatuto de “inimigo”. Na altura, com 150 trabalhadores, era a segunda maior fábrica da grande indústria corticeira portuguesa, só atrás da alemã O. Herold & C.ª, (Martins 2012: 143). Ao morrer (em Barcelona, a 28 de dezembro de 1916), José Narciso Prats deixou a propriedade da sua fábrica de cortiça de Sines – incluindo todo o equipamento e 25 mil marcos alemães – para a construção de um sanatório. Após disputas judiciais iniciadas pelo seu filho Alberto, a 23 de agosto de 1923 a Câmara Municipal tomou posse da propriedade. Alberto Prats García (? -1930) seguiria as pisadas do pai no negócio da cortiça.
A carreira profissional de Sireno Prats foi idêntica à do seu irmão mais velho, uma vez que Sireno, assim como José Narciso, também era dono de fábricas nos dois países ibéricos e tinha negócios de exportação para a Alemanha. Em Portugal, foi proprietário da Prats & Bou, fundada em 1881 em Odemira, que incluía uma fábrica e um armazém, situados no Largo do Poço Novo. Graças à sua proximidade à foz do Mira e ao porto de Sines, Odemira desenvolveu uma importante indústria corticeira, exportando para outros portos portugueses e, sobretudo, para destinos internacionais. A cortiça era o produto mais rentável, sobretudo porque parte dela beneficiava do valor acrescentado da preparação e transformação industrial. Além disso, Odemira dispunha de uma importante rede ferroviária, que a ligava às zonas de montado do Alentejo e do Algarve. A referida Prats & Bou, criada em parceria entre Sireno e o seu cunhado catalão Jaume Bou Mundet, adquiriu uma grande propriedade em Odemira, que incluía armazéns, barracões, diversas casas, um pomar e uma quinta. Outra empresa comercial portuguesa, a Barbosa & Comas, fundada em 1896 para o comércio e fabrico de rolhas de cortiça, comprometeu-se a vender os seus produtos exclusivamente à companhia de Sireno Prats em Hamburgo, através do porto de Lisboa, por um período de três anos (até à sua extinção). Na capital portuguesa, há também registo de uma fábrica de rolhas de cortiça pertencente a Sireno. Após a sua morte, em 1902, em Barcarrota (na Estremadura espanhola), o seu sobrinho Alberto Prats assumiria a direção das atividades industriais. Três anos mais tarde, Alberto casaria com a filha de Sireno – sua prima direita –, Dolores Prats Guzmán, tornando-se no último grande industrial da família Prats no sector da cortiça.
Alberto, que também viveu em Barcarrota, tinha importantes ligações comerciais com Portugal, especialmente com Sines e Lisboa. Assim como o seu pai, fez carreira diplomática em Badajoz como cônsul das Honduras; como industrial corticeiro, foi dono de fábricas em Espanha, em Barcarrota, Cáceres e Fregenal de la Sierra. Devido à baixa qualidade da cortiça da Estremadura e da Andaluzia, atestada em diversos artigos de jornal, Alberto importava cortiça portuguesa. Tal como ocorrera com o seu pai e o seu tio, a relação com a Alemanha – país natal do próprio Alberto – constituía uma parte importante da sua rede de negócios, através da casa de importação de que era proprietário em Hamburgo. No entanto, a crise do sector corticeiro acabaria por se impor, com o fim da hegemonia espanhola no negócio mundial em favor do seu vizinho português (Zapata 1996: 45-46). A situação precária do sector em Espanha, devido à qualidade das rolhas de cortiça, combinada com a obsolescência da maquinaria, tornou difícil a concorrência com Portugal. O próprio empresário confirmou a importação de cortiça portuguesa de maior qualidade, devido à situação desfavorável do sector em Espanha. Em 1923, Alberto Prats pronunciou-se sobre o assunto, numa série de artigos de jornal assinados por diferentes autores. Os direitos de exportação e o desejo de uma união aduaneira com Portugal e a Argélia são os dois temas centrais nas posições por si então defendidas. A sua importante atividade empresarial seria definitivamente interrompida a 9 de janeiro de 1930, quando perdeu a vida num acidente rodoviário perto de Setúbal, a caminho de Lisboa, acompanhado por Aurélio Saavedra, seu amigo e empresário de Badajoz, que sofreu ferimentos graves.
Referências
Faísca, C. M. & Parejo Moruno, F. M. (2023). “Das matérias-primas ao local onde a indústria acontece: padrões de localização da indústria na cortiça portuguesa, 1880-1980”. Rubrica contemporanea, 12 (23), pp. 179-201.
Martins Quaresma, António (2012). O Rio Mira no Sistema Portuário do Litoral Alentejano (1851-1918). Lisboa: Âncora Editora.
Zapata Blanco, S. (1996). “Corcho extremeño y andaluz, tapones gerundenses”. Revista de Historia Industrial, 10, pp. 37-68.
