Confrarias sufis em Moçambique

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Resumo

Analisa-se a presença histórica do Islão e das confrarias sufis em Moçambique. Séculos antes da colonização portuguesa, ordens como a Qadiriyya e a Shadhiliyya expandiram-se por rotas comerciais, promovendo literacia, educação e prática religiosa. Apesar da política católica colonial, prosperaram, moldando as comunidades muçulmanas do Norte. Atualmente, rituais sufis coexistem com movimentos reformistas como wahhabitas e deobandis, refletindo diversidade e disputas religiosas persistentes.

Descrição

No império português da África Oriental, floresceram culturas islâmicas profundamente enraizadas, que remontam a uma distante era pré-colonial. A presença islâmica na região data do século VII, antecedendo em vários séculos a expansão portuguesa. Já em 689, o califa ʿAbd al-Malik ibn Marwān enviou emissários sírios a Malindi, Zanzibar, Mombaça e Kilwa. Nos séculos seguintes, sucessivas vagas de exilados islâmicos e de comunidades comerciais árabes-persas ocuparam pontos ao longo da costa oriental de África. O dinamismo comercial destas comunidades atingiria o seu auge entre os séculos XII e XIV. O conhecimento do regime das monções e das correntes sub- e supraequatoriais facilitou a expansão marítima do Islão, que se estabeleceu nas ilhas do Oceano Índico até ao noroeste de Madagáscar, e assim gerou uma nova formação cultural, o suaíli. Só muito mais tarde, no final do século XVIII, os comerciantes muçulmanos começaram a deslocar-se para o interior do território africano, islamizando grupos étnicos como os Makua e os Ajaua (Yao).

Desde um período remoto, a dinâmica da conversão religiosa e a difusão da literacia islâmica na região estiveram intimamente relacionadas com a atividade das confrarias sufis a que muitos comerciantes muçulmanos estavam ligados. Apesar da política pró-católica do regime português, durante o período colonial o sufismo disseminou-se, proliferaram as suas subdivisões e acelerou-se a criação de novas “lojas”.

As confrarias sufis mais importantes de Moçambique pertencem às ordens Qadiriyya e Shadhiliyya, havendo também indícios da presença da ordem Rifaʿiyya. Todas elas prosperaram ao longo das rotas comerciais marítimas. A Qadiriyya foi fundada em Bagdade, no século XII, por ʿAbd al-Qādir al-Jīlānī (1077 ou 1078-1166). No século XIX, as suas confrarias floresceram e multiplicaram-se na África Oriental. A Uwaysiyya, um sub-ramo da Qadiriyya, surgiu na Somália graças ao prestígio de ʿAbd al-Rahman al-Zaylai (m. 1882) e de ʿUways Ibn Muhammad al-Barawi (1847-1909), tendo como centro principal a cidade portuária de Dar es Salaam. Este ramo da Qadiriyya, protegido pelo sultão Omani de Zanzibar, Bargash Ibn Said, e pelos seus descendentes, ganhou popularidade entre a população suaíli da costa e das ilhas do Oceano Índico, chegando a Moçambique através das rotas comerciais que o ligavam a Zanzibar. A chegada da Qadiriyya à Ilha de Moçambique, que deve ser entendida no contexto da rede global sufista, data de 1904-1905, estando ligada à figura de ʿIssa ibn Ahmad al-Ngaziji, que, como o seu nome indica, nasceu nas Comores (Ngazidja) e tinha anteriormente tido uma atividade importante em Zanzibar.

A Shadhiliyya foi fundada por Abū al-Hasan al-Shādhilī (1196-1258) e desenvolveu-se inicialmente no Magrebe, chegando ao Sudão apenas no século XV. No século XVIII, ganhou um novo sopro de vitalidade: chegaria a Zanzibar antes de 1850 e, por volta de 1880, começou a exercer a sua influência a partir das Comores. O ramo da Shadhiliyya presente neste arquipélago adotou o nome de Yashrutiyya, expandindo-se não só ao longo da costa, mas também no interior do continente (Ujiji, Tabora, Kampala). Pensa-se que a Shadhiliyya se terá estabelecido na Ilha de Moçambique em 1896.

Embora a Qadiriyya e a Shadhiliyya sejam as confrarias mais referidas, também se encontram registos de uma tariqa Muridiyya mais pequena entre o povo Yao. Trata-se, presumivelmente, de um ramo distante da irmandade criada por Ahmadou Bamba no Senegal, no fim do século XIX. De acordo com a história oral recolhida por Gerhard Liesegang, esta confraria foi introduzida por um mwalimu (letrado) itinerante, Cee Nyenje, que visitou por duas vezes o Estado Yao, governado por Mataka, por volta de 1890 e em 1910.

No final do período colonial, as correntes do islamismo originalmente enraizadas nos mundos árabe e suaíli coexistiram com comunidades asiáticas pertencentes ao xiismo ou ao sunismo hanafi (em vez da escola de direito shafiʿi, difundida entre a população africana). A irmandade socialmente mais enraizada na comunidade mestiça indiana é a Bezme Tabligh Isslamo Cadrya Sunni, associada à figura de Ahmade Dulá, que está ligada à associação mutualista Anuaril Isslamo e à Comunidade Mahometana Indiana, fundada em 1935.

As irmandades estavam envolvidas na promoção da alfabetização islâmica, da educação e no proselitismo religioso, tanto entre as elites quanto entre os estratos sociais mais baixos, incluindo as mulheres. Em geral, as irmandades opunham-se ao colonialismo europeu; por isso, a ida de vários líderes religiosos para Moçambique pode estar relacionada com a perseguição de que eram alvo por parte das autoridades coloniais francesas e alemãs. (Acredita-se que ʿIssa ibn Ahmad tivesse participado na resistência contra o domínio alemão em Tanganica).

Em Moçambique, durante a era colonial, o sufismo foi um fenómeno a que as autoridades portuguesas prestaram pouca atenção. No entanto, alguns autores daquele período deixaram um conjunto de observações – mesmo que incorretas – sobre os rituais sufis que observaram. Num texto memorialístico, publicado postumamente em 1902, António Enes faz uma breve referência aos rituais Rifaʿiyya, que interpreta como uma forma exótica de dança. Só no fim do domínio colonial as autoridades portuguesas começam a prestar mais atenção ao islamismo. No contexto da guerra da independência, travada principalmente no norte de Moçambique (onde o nível de islamização era relativamente elevado), os serviços secretos coloniais (os Serviços de Coordenação e Centralização de Informação, criados em 1961) receberam ordens para prestar mais atenção às confrarias e às suas atividades potencialmente sediciosas, de maneira a manipular os muçulmanos contra os movimentos independentistas. O conhecimento público disponível sobre as confrarias sufis limitava-se a alguns breves artigos de jornal publicados por Álvaro Pinto de Carvalho, com base no legado do seu amigo João Paulo Abranches de Sousa, investigador amador da história da Shadhiliyya e da Qadiriyya. A partir de 1975, o interesse pela exploração das confrarias sufis diminuiu consideravelmente; contudo, os dados antes recolhidos no âmbito dos Serviços Secretos encontraram algum desenvolvimento académico na tese de doutoramento de Fernando Amaro Monteiro, antigo técnico da administração colonial, responsável pela “ação psicológica” que visava obter a cooperação das comunidades muçulmanas com o regime.

Atualmente, a participação em ordens sufis ou em rituais associados ao sufismo – tais como o dhikr (“recordação”, um género de oração), o mawlid (a celebração do nascimento do Profeta Maomé e dos fundadores das confrarias), ou o ziyāra (peregrinação aos túmulos dos santos sufis) – é uma componente comum da vida dos muçulmanos, especialmente no Norte de Moçambique. A tendência para a formação de subdivisões no seio das confrarias, devido ao aparecimento de novos líderes, levou à coexistência, em Moçambique, de três ramos Shadhiliyya e cinco ramos Qadiriyya. Todos estes movimentos sufis colidem com a presença dos islamistas geralmente identificados como “wahhabitas”, bem como com o movimento Deobandi (corrente revivalista da escola de direito hanafi), cujo entendimento do Islão “ortodoxo” difere substancialmente da abordagem sufi.

Referências

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