Latinidade

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Resumo

O conceito de latinidade emergiu no século XIX, no contexto do Risorgimento italiano, como um projeto político e cultural que visava fortalecer os laços entre as nações de matriz latina na Europa e nas Américas Central e do Sul. Associado ao romantismo e ao nacionalismo, este conceito foi instrumentalizado por diferentes correntes ideológicas, e, em particular, pelo fascismo italiano. Contudo, com a aproximação da Itália fascista à Alemanha nazi, a ideia de uma comunidade panlatina foi, progressivamente, esvaziada.

Descrição

Desenvolvido no século XIX no seio do processo do Risorgimento conducente à independência do Estado italiano, o conceito de latinidade teve grande influência no meio intelectual e político português, sobretudo na fase inicial do Estado Novo. Visando uma união cultural entre as nações do Sul da Europa e da América Latina, os defensores da latinidade procuravam contrabalançar a aparente supremacia política e económica dos seus congéneres do Norte e do Centro da Europa.

A latinidade é, antes de mais, um produto da modernidade pós-revolucionária, uma “comunidade imaginária” que comunga de um mito agregador e totalizante, uma imanência feita transcendência. Assim, conforme sucedeu com outros nacionalismos, é possível escutar aqui ecos do mito palingenético, quer dizer, o renascer das cinzas, como a fénix, após um período de suposto declínio nacional. Em especial, quando se evocava a queda do Império Romano do Ocidente – matriz maior do sentimento de decadência, pelo menos a partir de autores como Giambattista Vico (1668-1744) e Edward Gibbon (1737-1794). Na verdade, a Giovine Italia – movimento fundado em 1831 por Giuseppe Mazzini (1805-1872), com o objetivo de unificar a Península Itálica –, o irredentismo e o imperialismo italiano, da batalha de Aduá (1896) a Benito Mussolini (1883-1945), seriam outros tantos passos no caminho da revivescência da cultura latina.

Em simultâneo, é preciso ter presente outra latinidade, aquela que medrou política e culturalmente em França ainda na primeira metade do século XIX. Autores como Michel Chevalier (1806-1879) advogaram uma visão panlatina, capaz de irmanar a Europa e a América do Sul sob o desígnio de uma raça e cultura comuns. Sem dúvida que a consciência da supremacia britânica e a putativa ameaça germânica terão pesado nesta avaliação. O Segundo Império de Napoleão III (1808-1873) favoreceu esta visão do mundo, procurando alcandorar-se à liderança de um mundo latino alargado, quer com a sua intervenção no México, nos inícios dos anos de 1860, quer com o apoio às lutas de independência dos italianos. O linguista Cyprien Robert (1807-1865) foi o ideólogo desse maximalismo galo-latino, imaginando a federação das populações da Península Ibérica, das Ilhas Britânicas, da Itália e dos alemães renanos sob a égide de Paris. A aceleração do processo de unificação alemã, que conduziu à Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), reforçou este sentimento. A música de Richard Wagner (1813-1883), tão amada quanto odiada em França, conheceu seguidores indefetíveis e críticos acérrimos. Claude Debussy (1862-1918) foi um dos que rejeitaram Bayreuth, favorecendo uma arte mais luminosa, mediterrânica e latina.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) constituiu um momento importante na renovação do conceito de latinidade. Em Portugal, as elites dividiram-se entre o apoio à Kultur germânica e à fraternidade latina. Confrontado com a ameaça alemã às colónias em África, o debate não deixou de retomar argumentos que remontavam às obras de Tácito (c. 56-c. 117), com imprecações filiáveis no “perigo amarelo” do “huno”. Autores como Fernando Pessoa (1888-1935), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Augusto Casimiro (1889-1967) ou João de Barros (1881-1960), acantonados na germanofilia ou na latinidade, ao dirimirem argumentos em torno de qual seria, afinal, a pátria da Luz, acabaram por olhar mais para Paris do que para Roma. Ainda assim, os defensores do intervencionismo no campo dos aliados divisaram a existência de uma comunidade mais alargada, capaz de incluir os falantes das primeiras e das últimas “flores do Lácio”, assim como a “Bélgica mártir”. Anos mais tarde, seria Norton de Matos (1867-1955) a reconhecer as pretensas qualidades da colonização levada a cabo pelas potências fundadas no substrato supostamente assimilador da latinidade, por oposição ao “distanciamento” e à falta de “vocação” anglo-saxónica e germânica.

Seja como for, coube ao fascismo, surgido em 1919, desenhar um entendimento político e ideológico a um tempo englobante e restrito. Em suma, combinando latinidade, romanità (romanidade) e italianità (italianidade), o movimento, depois regime, procurou envolver as comunidades de emigrantes no agasalho da pátria italiana, com o fito de estabelecer parcerias comunitárias com os países da América do Sul, expandindo assim a influência do Mediterrâneo para o Atlântico. O apelo à latinidade não deixaria de fora o Brasil e os países de língua oficial espanhola das Américas, pelo que os laços com os italianos na diáspora apenas poderiam sair reforçados. Diversas feiras e mostras, com maior ou menor sucesso, foram então aí organizadas sob a égide de uma estética fascista, por vezes também sentida como neocolonial. Neste particular, em 1924 seria lançada a expedição Nave Italia, em que um navio comercial italiano tocou diversos portos da América do Sul, podendo o governador da capital italiana, entre 1925 e 1926, afirmar que “Roma vive de vida perene e nós não somos os herdeiros, mas os continuadores da inexaurível força civilizadora. Os latinos da América (...) têm o direito de se considerar romanos, em virtude da glória do passado e da generosa vontade das iniciativas presentes” (Cremonesi 1926, p.6).

Todos estes esforços foram complementados com uma outra estratégia: o envolvimento de Portugal e de Espanha. Neste âmbito, Mussolini ensaiou expandir a sua influência na Europa do Sul, quer explorando as afinidades ideológicas com o regime de Miguel Primo de Rivera (1870-1930), quer atraindo uma série de jornalistas portugueses de direita, como António Ferro (1895-1956), Augusto de Castro (1883-1971), João Osório de Castro (1899-1970) e Homem Cristo Filho (1892-1928). Aqui cumpre assinalar duas iniciativas: o Istituto Cristoforo Colombo e os Congressos da Imprensa Latina, a partir da Association de la Presse Latine. Enquanto o primeiro, fundado em 1923, pretendia estimular a investigação e a divulgação da latinidade no espaço ibero-americano, mas sem grande sucesso, já os Congressos da Imprensa Latina lograram um alcance maior.

Procurando contrariar a crença no “declínio do Ocidente”, na formulação muito citada de Oswald Spengler (1880-1936), a latinidade foi aí apresentada como uma alternativa, até porque se propunha irmanar as duas margens do Atlântico. Treze edições desta iniciativa foram realizadas entre 1923 e 1935, tendo a cidade de Lisboa acolhido o Segundo Congresso da Imprensa Latina, em 1924. Augusto de Castro, diretor do Diário de Notícias, foi um dos promotores do evento. Aquando do Primeiro Congresso, que teve lugar em Lyon, o jornalista luso garantia que, “tendo o espírito latino vencido a guerra, só o espírito latino poderia fundar a paz”, ou seja, que “o Pan-Latinismo não era uma arma contra quem quer que fosse, mas uma força posta ao serviço da Civilização” (Castro 1922, p.1). Recorde-se que este último jornalista, apesar de admirador de Mussolini, reclamava para a França, “pela sua tradição espiritual e pelo direito sagrado do pensamento e da glória, a condição de facho imortal, de Pátria de todas as pátrias latinas” (Castro 1924, p.1), ao passo que outros promotores portugueses, como o jornalista Homem Cristo Filho, entreviam em Itália e no fascismo o passado e o futuro da latinidade. O Congresso buscava articular a cooperação entre os meios de comunicação social das “pátrias latinas”, a fim de fortalecer o “bloco latino”.

No entanto, e em última análise, a iniciativa acabou por fracassar, sobretudo pelas dissensões, também políticas, que nos anos de 1930 começavam a opor Roma a Paris. Por seu lado, a contração da emigração italiana para a América do Sul e o cada vez maior envolvimento de Mussolini nos Balcãs e na Europa Central ditaram o progressivo abandono da ideia de latinidade nesta aceção mais lata. De resto, a tentativa (falhada) de criar uma Internacional Fascista e a aproximação à Alemanha de Adolf Hitler (1889-1945) confirmaram o afastamento, prevalecendo antes uma romanidade agressiva e revisionista que, em 1935, se lançaria sobre a Abissínia, prelúdio ao aventureirismo de Mussolini nos anos seguintes.

Apesar do declínio da latinidade como projeto político no final dos anos 1930, o conceito não desapareceu completamente, ressurgindo no pós-Segunda Guerra Mundial. Contudo, ainda que ressignificado e apto a influenciar narrativas identitárias e estratégias de cooperação entre países latinos, tem sido sobretudo associado a contextos culturais e diplomáticos.

Referências

Anderson, Benedict (2012). Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. Lisboa: Edições 70.
Castro, Augusto de (1922). Diário de Notícias ano 59. Lisboa: Empresa do Diário de Notícias, 5 de junho.
Castro, Augusto de (1924). Diário de Notícias ano 61. Lisboa: Empresa do Diário de Notícias, 15 de fevereiro.
Cremonesi, Filippo (1926); “Roma e la tradizione latina”. Colombo vol. I, junho, pp.4-6.