A colonização interna foi um conjunto de ideias, políticas e técnicas que visaram promover conjugadamente a agricultura e a ocupação humana de regiões consideradas desertas ou pouco produtivas de Portugal, em particular os baldios e os “incultos” dos latifúndios do Sul. Durante o Estado Novo, e especialmente durante a década de 1950, o projecto colonizador foi desenvolvido em articulação internacional, nomeadamente com a Espanha franquista e a democracia cristã italiana.
Em 1950, Portugal aderiu à Comissão de Cooperação Técnica na África ao Sul do Saara (CCTA). No espaço português, e ao longo de cerca de uma década, a CCTA deu um novo impulso à investigação em várias especialidades científicas, em particular nas ciências sociais. No contexto desenvolvimentista do pós-guerra, a participação de Portugal na CCTA contribuiu para relegitimar o seu domínio colonial em África. No entanto, a história destas relações trans-imperiais tem um interesse que ultrapassa as dinâmicas particulares de cada estado: ela dá conta das raízes coloniais de uma parte importante das ciências sociais contemporâneas.
Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, a ditadura do Estado Novo proibiu qualquer intervenção privada na organização da saída de pessoas do país, ao mesmo tempo que implementou um processo de seleção de emigrantes burocrático e moroso. A fuga clandestina tornou-se então a opção mais procurada, tendo sido desenvolvidas várias estratégias e redes informais para acompanhar e orientar o candidato à emigração desde a saída até aos diversos destinos, nomeadamente França.
No século XX, Portugal tornou-se líder mundial no setor corticeiro, cuja receita provém da exportação de produtos derivados desta matéria-prima. Sendo um negócio internacionalizado, a presença de agentes económicos estrangeiros, sobretudo no século XIX, foi essencial para o seu desenvolvimento. Esta entrada resume a evolução do setor da cortiça em Portugal no período contemporâneo, destacando as constantes ligações transnacionais que têm contribuído para sustentar um dos principais setores da economia portuguesa.
Esta entrada procura situar a descolonização portuguesa face a processos análogos noutras formações imperiais europeias no século XX. Fá-lo numa perspetiva diacrónica, explorando quatro subdivisões temporais: 1919-1945 (os impactos das duas guerras mundiais); 1945-61 (as tentativas de relegitimação do colonialismo através do «desenvolvimento»); 1961-74 (a intensificação das pressões para a descolonização); e 1974-75 (o fim do império e as suas sequelas). A entrada procura salientar exemplos de influências transnacionais e matizar noções de uma singularidade portuguesa em todo este processo histórico.
Esta entrada analisa o envolvimento de Portugal na extração de diamantes, designadamente em Angola durante o século XX. Discute a fundação da DIAMANG, empresa colonial de mineração com sede em Lisboa, mas na prática transnacional, uma vez que dependia da gestão, do financiamento e da experiência no terreno de uma série de atores localizados nos EUA, na Bélgica, na África do Sul e na Grã-Bretanha.
Inicialmente influenciado por algumas das principais figuras da direita reacionária francófona, Rolão Preto (1893-1977) viria a aproximar-se do fascismo, sob influência de figuras italianas como Corradini e D’Annunzio. Líder do Movimento Nacional-Sindicalista, seguidor de Mussolini, entraria em conflito com Salazar no período inicial da ditadura do Estado Novo e passaria mesmo algum tempo exilado em Espanha. Já na segunda metade do século, terá renegado o fascismo, e em particular pensadores como Sorel e Maurras, que o haviam influenciado no início da sua carreira política.
Em meados do século XIX, o botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872) foi uma figura-chave na produção de conhecimento científico sobre o Império Português. As suas coleções de flora africana e a intensa correspondência com alguns dos mais eminentes botânicos da época fizeram dele um protagonista de uma história mais alargada das múltiplas relações entre ciência e colonialismo.
Depois da Revolução Russa de Outubro de 1917 nasceram Partidos Comunistas em várias partes do mundo. O Partido Comunista Português (PCP) foi criado em 1921, com uma forte marca originária anarquista, o que o diferenciou da maioria dos países europeus. Contudo, esta marca originária não foi caso único e as ligações com militantes anarquistas espanhóis foram igualmente relevantes nos anos da fundação do PCP.
Esta entrada aborda a consolidação do conceito de “indesejável” no período entreguerras e a forma como Portugal se inseriu nesta lógica, particularmente em voga na Europa, classificando dessa forma quem considerava suspeito e representativo de uma ameaça política e social.
O Instituto Bacteriológico Câmara Pestana (IBCP) foi fundado em Lisboa em 1892, no quadro de um movimento europeu de afirmação dos laboratórios como instituições centrais da produção científica. Com a identificação de bactérias como agentes patológicos, na transição do século XIX para o século XX, os microscópios passaram a ser instrumentos fundamentais nas práticas biomédicas. O IBCP, as redes internacionais em que se inseriu e as ligações que ajudou a criar são um excelente exemplo do impacto da revolução bacteriológica nas áreas da saúde e medicina em Portugal.
O jardim do Príncipe Real era um dos endereços mais exclusivos de Lisboa na década de 1880. Nos palacetes construídos à volta do jardim moravam vários grandes “empresários” portugueses. Este texto discute as histórias que se escondem por detrás desses edifícios e dos seus proprietários, das quais fazem parte indústrias e bancos portugueses, mas também escravos africanos, borracha da amazónia, imaginários urbanos parisienses e cultura arquitectónica italiana.
A trajetória intelectual do historiador João Lúcio de Azevedo (1855-1933) – incluindo a memorialística que continua até os dias de hoje, quase 100 anos após seu falecimento – é marcada por constantes conexões transnacionais. As trocas que Azevedo estabeleceu com intelectuais portugueses, brasileiros e de outras origens fizeram dele um elemento ímpar de articulação e promoção da produção do conhecimento histórico nas primeiras décadas do século XX, especialmente no Brasil e em Portugal. Nesse sentido, merece destaque a dimensão pragmática e material de sua atuação, que facilitava a circulação de livros e documentos entre os dois países – um aspecto decisivo para que as pesquisas históricas fossem possíveis naquele contexto. Contudo, mais importante do ponto de vista epistemológico, foi a elaboração e o desenvolvimento da "teoria dos ciclos", iniciada pelo historiador e continuada por diversos intelectuais subsequentes, pautando o pensamento econômico brasileiro do século XX.
No ano de 1936, o foneticista português Armando de Lacerda (1902-1984) criou na Universidade de Coimbra o Laboratório de Fonética Experimental. Equipado com modernos cromógrafos e aplicando métodos inovadores para a análise dos sons da linguagem, este espaço chegou a ser considerado por diversos membros da comunidade internacional como o mais avançado laboratório de Fonética Experimental da Europa. O estudo científico da fala humana desenvolvido por Lacerda atraiu ao longo de décadas investigadores dos quatro cantos do mundo, transformando o seu laboratório num dos centros da ciência fonética a nível global.