Realizada na passagem de ano de 1972 para 1973, a vigília da Capela do Rato foi o momento mais emblemático da oposição dos chamados «católicos progressistas» contra o regime do Estado Novo. Pelas repercussões que gerou, seja no plano interno (v.g., invasão de um templo pela polícia, debates na Assembleia Nacional, demissão dos funcionários públicos envolvidos na vigília), seja no plano internacional, o «caso da Capela do Rato» tornou-se um «lugar de memória» ainda hoje não isento de controvérsia, nomeadamente quanto ao envolvimento de alguns dos seus promotores com o grupo de luta armada das Brigadas Revolucionárias.
Este texto examina a trajetória do turismo em Portugal, enfatizando sua conexão com processos transnacionais. Sugere-se que uma leitura conectada da história do turismo em Portugal tenha como objetivo analisar como, ao longo do último século e em função dos diferentes contextos políticos ou económicos, os atores nacionais encararam ou refletiram sobre a dimensão transnacional do fenómeno turístico.
Sensivelmente desde finais do século XVIII que a chegada de camponeses à orla das cidades para trabalharem em fábricas foi acompanhada da migração de jovens camponesas à procura de trabalho doméstico. Os contornos da sua inscrição na vida privada têm sido marcados por uma grande invisibilidade, hoje igualmente notória num contexto pós-colonial, com a deslocação de trabalhadoras domésticas jovens, provenientes de países empobrecidos, para países com economias terciarizadas, do Norte Global.
Instalada numa pequena aldeia na zona do Ribatejo, em Portugal, a Sociedade Anónima de Rádio-Retransmissão, S.A.R.L, mais conhecida como RARET, desempenhou um papel importante nas disputas de propaganda e informação durante a Guerra Fria. A sua história ligou o conflito entre norte-americanos e soviéticos ao posicionamento externo da ditadura portuguesa, desde o pós-segunda guerra mundial até ao tempo da democracia, passando pelas tensões internacionais relativas à guerra colonial.
Após uma primeira proclamação ainda na década de 1970, e depois de sofrer o domínio neocolonial de Jacarta ao longo de 24 anos, Timor-Leste viria por fim a conquistar a sua independência a 20 de Maio de 2002, no termo de um período de administração directa pelas Nações Unidas e de um processo de solidariedade internacional de que participaram, entre outros, diferentes actores portugueses.
A utilização do sabão pode ser abordada no âmbito da história da vida privada, ou até no campo da economia e da investigação química, com o desenvolvimento das saboarias e da indústria dos detergentes. Tema que extravasa fronteiras, permite reflexões sobre higiene, saúde pública, propriedades fitoterápicas de certos sabões e a patrimonialização do limpo e do sujo, remetendo para diferentes dimensões políticas e culturais do corpo.
A seguir à Revolução dos Cravos, Portugal viu-se confrontado com o retorno dos seus colonos de Angola e Moçambique. A chegada de cerca de meio milhão de retornados durante o PREC representou um desafio suplementar para as autoridades. Como em França na década anterior, que teve de acolher os pieds-noirs da Argélia, os diferentes governos que se sucederam tiveram de implementar um conjunto de medidas visando a integração desta população.
Em diferentes países da Europa do Sul, verificaram-se protestos com grande expressão social em resposta às políticas de austeridade implementadas por governos nacionais e por instituições internacionais. Em Portugal, destacar-se-ia o movimento Que se Lixe a Troika, estabelecendo relações com movimentos e ações desenvolvidas noutros países, nomeadamente em Espanha, e assumindo de forma renovada a herança da Revolução de Abril.
Após a Revolução Portuguesa de 25 de Abril de 1974, Timor-Leste enfrentou um longo e turbulento processo de autodeterminação, que incluiu duas proclamações de independência. No início, ao longo de ano e meio, houve uma tentativa de garantir uma autodeterminação “exemplar”, que foi interrompida pela erupção de uma breve e sangrenta guerra civil, com a proclamação unilateral da independência e com a invasão militar indonésia. Seguiu-se, ao longo de 24 anos, o domínio neocolonial de Jacarta, alvo de intensa contestação popular, até que um referendo conduzido sob os auspícios da ONU ditou a recusa de um estatuto de autonomia no quadro da soberania indonésia, abrindo as portas à chamada “restauração” da independência, proclamada a 20 de Maio de 2002, no termo de um período de administração direta pelas Nações Unidas. Esta entrada debruça-se sobre a primeira proclamação.
As pragas de gafanhotos devastam colheitas, causando pobreza e fome em diversas regiões. Esses episódios, recorrentes e transnacionais, desafiam fronteiras e exigem cooperação entre países, como ocorreu em Portugal e Espanha em 1898.
Durante o Estado Novo, a indústria cinematográfica dos Estados Unidos da América (EUA), habitualmente designada por Hollywood, produziu mais de quarenta filmes de ficção cujo enredo se desenrola, pelo menos parcialmente, em Portugal ou nas suas colónias. Em conjunto com as intervenções de políticos, diplomatas, propagandistas, jornalistas e ativistas, estes produtos comerciais contribuíram para a disseminação de imagens e ideias sobre Portugal, sendo que o cinema de Hollywood se destacava pelo amplo apelo de massas, pelo vasto aparato publicitário e pela distribuição em grande escala, tanto dentro quanto fora dos EUA (incluindo em Portugal, onde ocupava a maioria do mercado). Dado o parco envolvimento de figuras e organismos portugueses nestas produções, o seu estudo revela como a projeção internacional de Portugal neste período se deveu a impulsos externos e não apenas internos. Ainda assim, com a exceção da representação do colonialismo em Macau, a tendência geral foi para uma sintonia entre os discursos de Hollywood e o do Estado Novo, nomeadamente em termos do posicionamento do país na Segunda Guerra Mundial, na Guerra Fria e na ascensão do turismo.
A história da polícia em Portugal participou de movimentos mais amplos de circulação de ideias, políticas, modelos e saberes, com destaque para a influência exercida por desenvolvimentos ocorridos na França e no Reino Unido. Foi também uma história feita em resposta a fenómenos transnacionais tão diversos como o aumento da circulação portuária entre as grandes cidades e a emergência dos autoritarismos de direita que, como no caso do Estado Novo, vieram atribuir à polícia a função de garante da ordem nacional, mais do que dos direitos dos cidadãos.
A oposição católica à ditadura do Estado Novo é uma história portuguesa, mas também nos leva a outros lugares importantes da formação e intervenção religiosa, cultural e política do catolicismo – de Lovaina, na Bélgica, à América Latina da Teologia da Libertação.
Durante os chamados “Longos Anos Sessenta” emergiram novos movimentos, num processo marcado por uma grande interligação transnacional e que exigiu a revisão da forma como as próprias ciências sociais entendiam o conflito. O caso português participou desse movimento mundial, ao mesmo tempo que a sua especificidade oferece um novo olhar sobre a dinâmica daqueles que ficaram também conhecidos como os “Anos Sessenta Globais”.